Pensão

Pensão alimentícia: como calcular o valor justo

"Quanto devo pagar/receber de pensão?" é, provavelmente, a pergunta mais feita em escritórios de Direito de Família. A resposta não é uma tabela oficial — o Brasil trabalha com o binômio necessidade × possibilidade, com larga margem de análise.

Este artigo explica como a conta é feita na prática, com exemplos reais.

O que a lei diz

O art. 1.694, § 1º do Código Civil é a base: "Os alimentos devem ser fixados na proporção das necessidades do reclamante e dos recursos da pessoa obrigada."

Duas grandezas:

  • Necessidade do alimentando (quem recebe)
  • Possibilidade do alimentante (quem paga)

Não há tabela. Juízes trabalham com faixas usuais, jurisprudência da comarca e razoabilidade. Mas faz diferença a preparação — quem chega com cálculo fundamentado tem resultado mais justo.

Faixas usuais

Cenário Faixa típica (renda líquida)
Um filho, pai com renda modesta 20-25%
Um filho, pai com renda média 20-30%
Um filho, pai com renda alta 15-20%
Dois filhos 25-35%
Três filhos 30-40%
Filho com necessidades especiais 30-50%+ ou valor fixo

Essas são faixas, não regras. Caso concreto pode justificar valores maiores ou menores.

Passo a passo do cálculo

1. Levante as despesas reais da criança

Lista típica:

  • Escola ou creche: mensalidade
  • Plano de saúde: parcela proporcional da criança
  • Alimentação: proporção na família (divida a conta familiar)
  • Vestuário: média mensal anual dividida em 12
  • Lazer: cinema, passeios, presentes
  • Material escolar e uniforme: anual, dividido em 12
  • Atividades extra: natação, música, inglês
  • Transporte: escola, atividades
  • Despesas específicas: remédios, terapia

Some tudo. Este é o valor-base da necessidade.

2. Apure a renda líquida do alimentante

Fontes típicas:

  • Holerite (CLT)
  • Pró-labore + dividendos (empresário)
  • Faturamento de MEI
  • Aluguéis
  • Rendimentos de aplicações

Retire IR, INSS, previdência privada, plano de saúde obrigatório. Chegamos à renda líquida.

3. Divida o valor-base pela proporção dos pais

Regra comum: ambos os pais contribuem. Se a despesa total é R$ 3.000 e os dois ganham parecido, cabe a cada um cerca de R$ 1.500 (proporcional).

Quando há desequilíbrio (ex.: pai ganha R$ 15.000 líquidos, mãe R$ 3.500), a proporção pende para o de maior renda. Em um caso assim:

  • Renda total: R$ 18.500
  • Proporção do pai: 81%
  • Proporção da mãe: 19%
  • Despesa mensal da criança: R$ 3.000
  • Contribuição esperada do pai: R$ 2.430 (81% de R$ 3.000)

Valor arredondado, com alguma margem. Em alguns casos, o juiz acolhe; em outros, reduz pela razoabilidade ao lado de outras despesas do alimentante (novo filho, outros encargos).

Exemplos práticos

Exemplo 1: filho único em idade escolar

  • Filho de 8 anos, escola R$ 1.500, atividades R$ 600, saúde R$ 400, alimentação/vestuário R$ 900 → total R$ 3.400
  • Pai ganha R$ 10.000 líquidos. Mãe ganha R$ 4.000.
  • Proporção pai: 71% × R$ 3.400 = R$ 2.414
  • Pensão requerida: cerca de 25% da renda líquida do pai = R$ 2.500

Exemplo 2: dois filhos pequenos

  • Duas crianças, despesa total R$ 4.200
  • Pai ganha R$ 6.500 líquidos. Mãe ganha R$ 2.500.
  • Proporção pai: 72% × R$ 4.200 = R$ 3.024
  • Equivale a ~47% da renda líquida do pai — na prática, o juiz ajustaria para 35-40% (cerca de R$ 2.500), dentro do razoável

Exemplo 3: renda alta, padrão elevado

  • Filho em escola internacional, R$ 15.000 só em escola e atividades
  • Pai ganha R$ 80.000 líquidos. Mãe ganha R$ 5.000.
  • Padrão de vida justifica manutenção das despesas
  • Pensão: R$ 14.000 (17,5% da renda líquida do pai) — usual em famílias de alto padrão

Erros comuns no cálculo

  1. Não somar benefícios indiretos: se o pai paga escola diretamente, desconta da pensão
  2. Esquecer despesas anuais: viagem de formatura, presentes, material
  3. Contar bens, não renda: patrimônio grande com renda pequena dá resultado curioso — explica-se caso a caso
  4. Usar renda bruta: sempre trabalhe com líquida
  5. Não reservar para despesa do próprio alimentante: deve sobrar para ele viver
  6. Ignorar outros filhos: filhos de outras relações também têm direito

Pensão em valor fixo × percentual

Percentual é mais comum — acompanha variações do salário. Útil quando o alimentante é CLT com renda estável.

Valor fixo tem vantagens:

  • Facilita cobrança (todos sabem quanto é)
  • Evita disputa sobre "qual é a renda real"
  • Usado quando o alimentante é empresário com renda flutuante
  • Comum em alto padrão

Valor fixo + percentual sobre extras (13º, férias, bônus) é um meio-termo que funciona bem.

Quando o alimentante não declara renda real

Empresários, autônomos, informais — a renda na declaração de IR pode não refletir a realidade. Como lidar:

  • Padrão de vida como indício (carro, moradia, viagens)
  • Extratos bancários (quebra de sigilo)
  • Redes sociais (ostentação é prova)
  • Testemunhas de movimentação
  • Pensão presumida sobre sinais externos

Atualização da pensão

Pensão não é estática. Pode ser revisada em:

  • Mudança de renda do alimentante (pra cima ou pra baixo)
  • Novas necessidades do filho (escola diferente, doença, atividade)
  • Novos filhos do alimentante
  • Nova união do alimentando (em pensão a ex-cônjuge)

Revisão exige ação judicial — mudanças unilaterais geram dívida e prisão.

Inadimplência

Pensão não paga:

  • Execução com prisão para dívidas recentes (até 3 meses) — 1 a 3 meses de prisão civil
  • Execução por expropriação (penhora de bens, salário) para dívidas mais antigas
  • Protesto e negativação

Tempo médio de uma execução eficaz: 30-90 dias.

Conclusão — e o que fazer

Antes de ir ao judicial, tente acordo. Acordo homologado custa 3-5x menos e tem maior cumprimento voluntário. Para desenhar acordo justo, procure orientação especializada.

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